Reincido no tema da intolerância. [Prisão Pública]
Há uns dias atrás assisti a uma conferência do Prof. Dr. Luís Carlos Menezes, honorável presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise e um livre pensador no melhor e mais aprofundado sentido dessa expressão.
Nesta conferência o Professor Menezes contou a história real que eu passo a transcrever aqui:
“Foi uma pequena passagem que ouvi recentemente de uma colega israeliana num interessante e longo trabalho sobre não sei mais exactamente que assunto. Para o que nos importa, o Ministério da Educação em Israel achou por bem, contou-nos ela, fazer uma campanha nas escolas para que as crianças aprendessem a preservar as flores selvagens. Foi um sucesso, só que a coisa foi mais longe que o previsto inicialmente: as crianças passaram a cobrar dos pais que também cuidassem de não pisar em uma flor selvagem, em exigir que também cuidassem de sua preservação, de tal forma que isto se transformou numa verdadeira tirania sobre os pais que passaram a viver no sobressalto de algum descuido. Deu para perceber em uma frase o horror que a colega sentiu ao pensar sobre este desdobramento de uma proposta tão inocente, perguntando-se sobre o que poderia acontecer se o conteúdo fosse outro. (…) O cuidado com as flores selvagens, de uma escolha eventualmente interessante em favor de uma campanha que poderia solicitar a adesão lúcida das pessoas, passou a atropelá-las, pelo poder de aderência e de indiscriminação que a ideia exerce sobre elas, agindo de forma massificadora. (…) Como uma escolha tão lúcida, a da busca do bem-estar em si e de cada um, pode derrapar tão brutalmente?”.
Todo o amor ou dedicação, mesmo que por uma coisa boa, quando levado ao excesso, dá origem à intolerância.
É possível amar, querer de mais?… Sim. Quando o amor por algo apaga o valor de tudo o resto. Quando cegamos face ao sol único que nós próprios criámos. Quando a preservação intacta do que “adoramos” torna insuportável a existência de tudo aquilo que se apresenta como diferente. E o diálogo se perde, na surdez obrigatória aos argumentos.
Quando deixamos de ter – e tiramos aos outros – a liberdade da opção.
Catarina A. Santos
