
Há uns dias, parte de nós encheram as janelas e as varandas de bandeiras nacionais. Uns dias depois, parte de nós desqualificaram intelectualmente quem teve esse gesto. Na televisão, parte de nós pararam os camiões em protesto pelo aumento dos combustíveis e parte de nós continuaram a querer guiá-los. Na televisão, a parte que quer parar atribui-se a verdade e o direito absoluto e agride quem não concorda. Tal como quem não põe a bandeira, se atribui o direito de opinar sobre algo que está numa janela que não é a sua. Na rádio, um músico que vale pelo talento enorme que tem, insiste em afirmar que não é como esses outros “que pensam na carreira” em lugar de pensar na música como ele. Mesmo sendo ele muito bom, mesmo podendo ser um bom exemplo, porque aspiraria ele a ser um exemplo obrigatório?
O movimento psicológico subjacente é precisamente o mesmo. E é comum à maioria das situações que envolvam relações humanas. É indiferente se estamos à esquerda, à direita ou ao centro. A ideia é sempre a mesma. Quem quer estar connosco tem de comungar as nossas profundas certezas e renegar todas essas outras que nos fazem sentir postos em causa. A ideia é sempre a mesma. Sejamos políticos, camionistas, cônjuges ou amigos. Toda a gente fala dessa liberdade a que não se chega, porque se está demasiado ocupado a gerir o coeficiente de liberdade dos outros.
Ser livre é primeiro que tudo libertar esses outros: o cidadão, o vizinho, o colega, o amigo, o companheiro. Poderá alguma vez um carcereiro, na sua vigília interminável, ser livre? E porque é tão difícil deixar os outros decidirem por si? Deixá-los optar por escolhas e ideias que não são as nossas? Provavelmente, porque deixar os outros “ir”, é aceitarmos ficar sós. Sós com aquilo que acreditamos.
E exactamente por gostarmos tão pouco de ficar sós, é que procuramos formar pares ou grupos que partilhem os nossos ideais, os nossos sonhos – e os nossos medos. Juntos somos mais fortes. E isto é natural e é humano e faz parte da sobrevivência da espécie.
A questão da intolerância surge precisamente aqui. Quando a partilha de crenças individuais dá lugar à imposição ditatorial de certezas pessoais e irrevogáveis. Quando o grupo no seu todo se esquece, que um conjunto de elementos enfraquecidos por mais que se junte, nunca será forte.
Um intolerante é um ser dependente, que precisa que o outro seja igual a si, para não ficar só.
Catarina Santos