“Raiva e zanga. Mas porquê tristeza?”.
Nós sentimos raiva quando nos lembramos daquilo que o outro nos fez. Nós ficamos tristes quando nos lembramos daquilo que permitimos que o outro nos fizesse.
Enquanto gastamos o tempo a pensar nas culpas do outro, nas artimanhas que usou ou nos danos que causou, não sobra tempo para pensarmos em qual foi o nosso papel no meio de tudo aquilo. Não se trata de falar de culpas ou de responsabilidades, mas de falar de nós e dos nossos porquês. Dos nossos afectos. Do que nos move.
Porque é que não gastámos mais tempo a conhecer o outro antes de o tomarmos? Porque não saímos mais cedo de cena? Porque é que fomos ficando?… Cada vez que acusamos alguém de ser mau, temos de nos perguntar imediatamente a seguir porque é que continuamos ali. Porque é que estamos ali, uma vez mais, a por-nos a jeito para mais qualquer coisa…?
A raiva é necessária; absolutamente necessária. Antes de tentar ver a perspectiva do outro há que primeiro ver a nossa. Mas depois que venha a tristeza. Essa tristeza que nos põe face a face com o facto de que foi também nossa a opção de estarmos ali. Essa tristeza que nos deixa preparados para viver as próximas situações com mais confiança e lucidez. Quanto mais conscientes dos porquês que nos movem, mais donos do nosso destino nos tornamos. Domnus.
A culpa, ou a sua tentativa de atribuição, a nós próprios ou aos outros, não nos serve absolutamente para nada a não ser para nos esquecermos de olhar para dentro e percebermos – de nós para nós – porque é que fazemos o que fazemos.
Catarina Santos

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