NailS UNpolished
As portas fecham-se. E fecham-se mais por culpabilidade que por outro motivo qualquer.
Às vezes fechamos as portas de rompante com um belo estrondo. Outras vezes fechamo-las devagar, quase sorrateiramente. De uma forma ou de outra a ideia é encerrar qualquer coisa lá fora - ou será cá dentro?… Por vezes, as situações permitem-nos fazê-lo sem grandes explicações ou públicos. Outras vezes enleamo-nos em porquês e escoramo-nos de tomadas de decisão cuja a implacabilidade ninguém entende, mas todos calam ou aprovam. E fazem bem. Quando se tem - ou se acredita ter - de fechar uma porta, toda a argumentação funciona um pouco como uma biqueira de sapato no vão entre a porta e o umbral: é non grata. A radicalidade é um estado promovido pela emocionalidade a que a racionalidade é absolutamente alheia.
Fechada a porta respiramos de alívio e vamos até à cozinha beber um café. Algures entre o café a meio da chávena e a chávena vazia surgirá pela primeira vez a dúvida. Mas a dúvida surgirá imensas vezes até a esquecermos.
Sempre que fechamos uma porta assumimos a nossa incapacidade para lidar com algo - o que ás vezes é sádio, mas a maior parte das vezes é apenas uma retirada face a algo que não compreendemos - nem queremos compreender. Muitas vezes é também a ùnica forma que temos de não ficar face a face com os nossos gestos, com as nossas palavras, com o nosso egoísmo, com a nossa imponderação… com a nossa culpa no cartório. Com a nossa vergonha. A porta está fechada, mas há vestígios do nosso verniz (vermelho) espalhados por toda ela.
Catarina Santos
Foto: Propriedade de Craig Roberts.
