Carta de Helena de Tróia ao Adamastor
(Já não Querido) Adamastor,
“Cada vez que julgamos que nos vingámos, o ódio reaparece.”, escreveste.
Agora já sei que te referias a ti, Adamastor. O teu ódio por mim é inultrapassável… Não houve maldade alguma tua, por mais bárbara ou vil, que tenha chegado para satisfazer o teu desejo de vingança.
Alivia-me perceber que tinha razão. Nenhuma relação fecundaria num solo prenhe de ódio. Por isso tens de me deixar ir. Deixou de haver espaço. Deste resposta às minhas perguntas e eu agradeço-te por isso. Libertaste-me.
Agora percebo que forcei razões para gostar de ti. Sempre foram mais as coisas que nos afastaram do que as que nos uniram. Acho que és um sobrevivente mas no pior sentido do termo.
E sim, deita as cuecas fora. Já agora deita também a minha escova de dentes, que sabe lá Deus porquê, guardaste na última prateleira do armário do wc. Deita-a fora. Eu não vou lá estar para a receber de volta. Tu nunca irás mudar. Regresso a Esparta e a Melenau.
Helena
PS: Deixo-te ficar aquela foto que te tirei em cima do rochedo. Quando me disseste que estavas a fazer adeus às ondas…
Kami Kaze in Cartas de Helena de Tróia.
Não sabemos o que o Adamastor fez à escova de dentes. Sabemos que era de marca branca e de tipo “macia” o que não agradava particularmente a Helena que sempre preferiu escovas de dentes “duras”. Sabemos também que Helena nunca recuperou a sua peça de roupa interior. Acreditamos que foi à Oisho e comprou outras vermelhas com umas cornucópias douradas mínimas. Lindíssimas. Um leitor mais atento relatou-nos tê-la visto à porta dos provadores com o cabide na mão. O leitor referiu ainda que Helena aparentava estar calma e de bom humor o que a nós nos agradou particularmente saber. O Rei Menelau recebeu-a de braços abertos. Depois de Páris e do episódio em Tróia, qualquer regresso sem obrigatoriedade de pôr milhares de homens em campo é bem vindo. Sabemos que Zeus, Leda e Tíndaro apareceram para dar o seu apoio a Helena. Não tivemos mais relatos relativos ao Adamastor mas assumimos que ainda esteja na sua gruta, a esfregar a escova de dentes pela coxa e a tentar perceber a diferença entre “macia” e “dura”… Sabemos que atirou com algumas caravelas portuguesas às rochas na tentativa de entender melhor o conceito de “consistência”, e acabou alvo do poema de Fernando Pessoa que se segue.
O Monstrengo
“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse:«Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»”
Fernando Pessoa
Porque ao leme de um navio, seja ele qual for… nós temos de ser sempre mais do que nós. Nós temos de ser todas as pessoas, que contam connosco para seguir viagem.
Catarina A. Santos
Foto: Pintura de Carlos Reis “O Adamastor”.
