Sob Penhora

Depressividade

Quem pensa que o sadomasoquismo é apenas uma variante ao comportamento sexual tem de pensar outra vez. E pode começar por aqui: A identificação da vítima ao agressor ou o masoquismo moral.

“No fundo ela agarra-se à ideia que a outra pessoa vai mudar. Que vai deixar de fazer as coisas que faz. Que se vai tornar boazinha… “.

Não. Ninguém se submete a um carrasco por acreditar que ele um dia vai mudar e ficar “bonzinho”. Quem se submete a um carrasco, quem se ajoelha sob o seu domínio, aguarda a única coisa que pode aguardar… que o carrasco finalize a sua missão. Quem se submete a um carrasco espera dele o castigo devido – se possível máximo – para esse “pecado” de que não se lembra bem, mas do qual tem a certeza que saiu impune.

Não há um sádico se não houver um masoquista. E, é bem verdade, que o masoquista se põe a jeito. Mas é igualmente verdade que não é masoquista quem quer, é masoquista quem pode. E o que habilita alguém a essa condição é um passado profundamente marcado pela falta de amor. Pela ausência de um investimento afectivo e humano incondicional. É uma infância demasiado pobre. Uma infância na qual, como Marguerite Duras escreve: “Muito cedo na minha vida, era já tarde demais.”.

No masoquismo não se ama a dor. Ama-se o alívio que a dor traz à culpabilidade que se sente dentro. Ama-se a confirmação da certeza de não se ser amado e de, por isso mesmo, não se merecer mais nada para além de mais desamor. “Odeia-me como eu gostaria de me conseguir odiar, pela tristeza absoluta de nunca ter conseguido merecer o afecto dos outros.”.

Ama-se o saldar da dívida, numa existência em que a autonomia e a felicidade, estão eternamente sob penhora.

Catarina Santos

Foto: Retirada de Knowledge Base.

One Response

  1. [...] E, desta feita, não é umbiguista quem pode… é umbiguista quem quer. [Sob Penhora…] [...]

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