Os nós nas palavras

Escultura de Igor Mitoraj

Ouvi uma vez alguém dizer que as palavras deviam ser racionadas. Que só deveríamos poder usar um número limitado por dia.

Gostava de me lembrar quem foi que o disse, porque esta frase faz-me parcialmente sentido. Acho que muitas vezes gastamos, de facto, palavras e mais palavras, para um fim outro que aqueles para que as aprendemos. E esta utilização a que me refiro nada tem de original ou de criativo. Estou a pensar nos momentos em que usamos as palavras já não para dizer algo, já não para exprimir os afectos conscientes ou inconscientes, já não para criar palavras novas ou outra coisa qualquer, mas tão somente para preencher o silêncio – prefiro chamar-lhe “o vazio”. Quando isto acontece, é porque algo de substancialmente importante se perdeu, na relação com o outro (ou outros) que temos à nossa frente.

O silêncio é um momento de comunicação entre duas pessoas. O vazio é o sentimento de uma pessoa. Frequentemente, o vazio é projectado pela pessoa que o sente sobre o silêncio que existe entre ela e os outros… retirando-lhe a beatitude, e transformando-o num lugar que sente como estéril e incomportável.

Catarina Santos

Foto: Escultura de Igor Mitoraj por Gonzalo Bérnard.

2 Responses

  1. Se as palavras fossem racionadas, teríamos uma inteligência emocional alta. Pensaríamos muito bem antes de falar, seríamos muito correctos, precisos no que dizíamos, tirávamos muito mais partido de tudo… excepto de uma coisa… perdíamos a espontaneidade… seria melhor?

  2. Como eu disse.. concordo “parcialmente”.:) A espontaneidade é algo de que nunca deveremos abrir mão.

    No entanto, os momentos que refiro, são de puro preenchimento de um vazio interior e nada têm a ver com espontaneidade; aliás são absolutamente desprovidos desta. São como gritos em surdina que se dão, porque não se consegue aguentar mais a pressão, de ter um pensamento caótico à deriva dentro de nós.

    Catarina A. C. Santos

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