Prisão Pública

Junho 11, 2008 - No Responses

Há uns dias, parte de nós encheram as janelas e as varandas de bandeiras nacionais. Uns dias depois, parte de nós desqualificaram intelectualmente quem teve esse gesto. Na televisão, parte de nós pararam os camiões em protesto pelo aumento dos combustíveis e parte de nós continuaram a querer guiá-los. Na televisão, a parte que quer parar atribui-se a verdade e o direito absoluto e agride quem não concorda. Tal como quem não põe a bandeira, se atribui o direito de opinar sobre algo que está numa janela que não é a sua. Na rádio, um músico que vale pelo talento enorme que tem, insiste em afirmar que não é como esses outros “que pensam na carreira” em lugar de pensar na música como ele. Mesmo sendo ele muito bom, mesmo podendo ser um bom exemplo, porque aspiraria ele a ser um exemplo obrigatório?

O movimento psicológico subjacente é precisamente o mesmo. E é comum à maioria das situações que envolvam relações humanas. É indiferente se estamos à esquerda, à direita ou ao centro. A ideia é sempre a mesma. Quem quer estar connosco tem de comungar as nossas profundas certezas e renegar todas essas outras que nos fazem sentir postos em causa. A ideia é sempre a mesma. Sejamos políticos, camionistas, cônjuges ou amigos. Toda a gente fala dessa liberdade a que não se chega, porque se está demasiado ocupado a gerir o coeficiente de liberdade dos outros.

Ser livre é primeiro que tudo libertar esses outros: o cidadão, o vizinho, o colega, o amigo, o companheiro. Poderá alguma vez um carcereiro, na sua vigília interminável, ser livre? E porque é tão difícil deixar os outros decidirem por si? Deixá-los optar por escolhas e ideias que não são as nossas? Provavelmente, porque deixar os outros “ir”, é aceitarmos ficar sós. Sós com aquilo que acreditamos.

E exactamente por gostarmos tão pouco de ficar sós, é que procuramos formar pares ou grupos que partilhem os nossos ideais, os nossos sonhos - e os nossos medos. Juntos somos mais fortes. E isto é natural e é humano e faz parte da sobrevivência da espécie.

A questão da intolerância surge precisamente aqui. Quando a partilha de crenças individuais dá lugar à imposição ditatorial de certezas pessoais e irrevogáveis. Quando o grupo no seu todo se esquece, que um conjunto de elementos enfraquecidos por mais que se junte, nunca será forte.

Um intolerante é um ser dependente, que precisa que o outro seja igual a si, para não ficar só.

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Destino com Domnu

Maio 27, 2008 - One Response

“Raiva e zanga. Mas porquê tristeza?”.

Nós sentimos raiva quando nos lembramos daquilo que o outro nos fez. Nós ficamos tristes quando nos lembramos daquilo que permitimos que o outro nos fizesse.

Enquanto gastamos o tempo a pensar nas culpas do outro, nas artimanhas que usou ou nos danos que causou, não sobra tempo para pensarmos em qual foi o nosso papel no meio de tudo aquilo. Não se trata de falar de culpas ou de responsabilidades, mas de falar de nós e dos nossos porquês. Dos nossos afectos. Do que nos move.

Porque é que não gastámos mais tempo a conhecer o outro antes de o tomarmos? Porque não saímos mais cedo de cena? Porque é que fomos ficando?… Cada vez que acusamos alguém de ser mau, temos de nos perguntar imediatamente a seguir porque é que continuamos ali. Porque é que estamos ali, uma vez mais, a por-nos a jeito para mais qualquer coisa…?

A raiva é necessária; absolutamente necessária. Antes de tentar ver a perspectiva do outro há que primeiro ver a nossa. Mas depois que venha a tristeza. Essa tristeza que nos põe face a face com o facto de que foi também nossa a opção de estarmos ali. Essa tristeza que nos deixa preparados para viver as próximas situações com mais confiança e lucidez. Quanto mais conscientes dos porquês que nos movem, mais donos do nosso destino nos tornamos. Domnus.

A culpa, ou a sua tentativa de atribuição, a nós próprios ou aos outros, não nos serve absolutamente para nada a não ser para nos esquecermos de olhar para dentro e percebermos - de nós para nós - porque é que fazemos o que fazemos.

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Quero

Abril 19, 2008 - 4 Responses

Quero alguém que me arrebate. E que depois de me arrebatar, me trate bem. Quero duas toalhas penduradas no meu estendal. Quero tropeçar em alguém, logo pela manhã, no aperto da casa de banho.

Porque as coisas mais complicadas de ter, podem ser estranhamente fáceis de dizer.

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

The Serpent’s Story ou Uma História para Mulheres

Abril 6, 2008 - 2 Responses

Lady Lilith por Rossetti

“Hush! Hush! Hush! Come closer to me. Look into my eyes!

I always was a fascinating creature, tender, sensitive, and grateful. I was wise and I was noble. And I am so flexible in the writhing of my graceful body that it will afford you joy to watch my easy dance. Now I shall coil up into a ring, flash my scales dimly, wind myself around tenderly and clasp my steel body in my gentle, cold embraces. One in many! One in many!

Hush! Hush! Look into my eyes!

You do not like my writhing and my straight, open look? Oh, my head is heavy–therefore I sway about so quietly. Oh, my head is heavy– therefore I look so straight ahead, as I sway about. Come closer to me. Give me a little warmth; stroke my wise forehead with your fingers; in its fine outlines you will find the form of a cup into which flows wisdom, the dew of the evening-flowers. When I draw the air by my writhing, a trace is left in it–the design of the finest of webs, the web of dream-charms, the enchantment of noiseless movements, the inaudible hiss of gliding lines. I am silent and I sway myself. I look ahead and I sway myself. What strange burden am I carrying on my neck?

I love you.

I always was a fascinating creature, and loved tenderly those I loved. Come closer to me. Do you see my white, sharp, enchanting little teeth? Kissing, I used to bite. Not painfully, no–just a trifle. Caressing tenderly, I used to bite a little, until the first bright little drops appeared, until a cry came forth which sounded like the laugh produced by tickling. That was very pleasant–think not it was unpleasant; otherwise they whom I kissed would not come back for more kisses. It is now that I can kiss only once–how sad– only once! One kiss for each–how little for a loving heart, for a sensitive soul, striving for a great union! But it is only I, the sad one, who kiss but once, and must seek love again–he knows no other love any more: to him my one, tender, nuptial kiss is inviolable and eternal. I am speaking to you frankly; and when my story is ended–I will kiss you.

I love you.

Look into my eyes. Is it not true that mine is a magnificent, a powerful look? A firm look and a straight look? And it is steadfast, like steel forced against your heart. I look ahead and sway myself, I look and I enchant; in my green eyes I gather your fear, your loving, fatigued, submissive longing. Come closer to me. Now I am a queen and you dare not fail to see my beauty; but there was a strange time–Ah, what a strange time! Ah, what a strange time! At the mere recollection I am agitated–Ah, what a strange time! No one loved me. No one respected me. I was persecuted with cruel ferocity, trampled in the mud and jeered–Ah, what a strange time it was! One in many! One in many!

I say to you: Come closer to me.

Why did they not love me? At that time I was also a fascinating creature, but without malice; I was gentle and I danced wonderfully. But they tortured me. They burnt me with fire. Heavy and coarse beasts trampled upon me with the dull steps of terribly heavy feet; cold tusks of bloody mouths tore my tender body–and in my powerless sorrow I bit the sand, I swallowed the dust of the ground–I was dying of despair. Crushed, I was dying every day. Every day I was dying of despair. Oh, what a terrible time that was! The stupid forest has forgotten everything–it does not remember that time, but you have pity on me. Come closer to me. Have pity on me, on the offended, on the sad one, on the loving one, on the one who dances so beautifully.

I love you.

How could I defend myself? I had only my white, wonderful, sharp little teeth–they were good only for kisses. How could I defend myself? It is only now that I carry on my neck this terrible burden of a head, and my look is commanding and straight, but then my head was light and my eyes gazed meekly. Then I had no poison yet. Oh, my head is so heavy and it is hard for me to hold it up! Oh, I have grown tired of my look–two stones are in my forehead, and these are my eyes. Perhaps the glittering stones are precious–but it is hard to carry them instead of gentle eyes–they oppress my brain. It is so hard for my head! I look ahead and sway myself; I see you in a green mist–you are so far away. Come closer to me.

Lady Lilith por J. Collier

You see, even in sorrow I am beautiful, and my look is languid because of my love. Look into my pupil; I will narrow and widen it, and give it a peculiar glitter–the twinkling of a star at night, the playfulness of all precious stones–of diamonds, of green emeralds, of yellowish topaz, of blood-red rubies. Look into my eyes: It is I, the queen–I am crowning myself, and that which is glittering, burning and glowing–that robs you of your reason, your freedom and your life–it is poison. It is a drop of my poison.

How has it happened? I do not know. I did not bear ill-will to the living.

I lived and suffered. I was silent. I languished. I hid myself hurriedly when I could hide myself; I crawled away hastily. But they have never seen me weep–I cannot weep; and my easy dance grew ever faster and ever more beautiful. Alone in the stillness, alone in the thicket, I danced with sorrow in my heart–they despised my swift dance and would have been glad to kill me as I danced. Suddenly my head began to grow heavy–How strange it is!–My head grew heavy. Just as small and beautiful, just as wise and beautiful, it had suddenly grown terribly heavy; it bent my neck to the ground, and caused me pain. Now I am somewhat used to it, but at first it was dreadfully awkward and painful. I thought I was sick.

And suddenly… Come closer to me. Look into my eyes. Hush! Hush! Hush!

And suddenly my look became heavy–it became fixed and strange–I was even frightened! I want to glance and turn away–but cannot. I always look straight ahead, I pierce with my eyes ever more deeply, I am as though petrified. Look into my eyes. It is as though I am petrified, as though everything I look upon is petrified. Look into my eyes.

I love you. Do not laugh at my frank story, or I shall be angry. Every hour I open my sensitive heart, for all my efforts are in vain– I am alone. My one and last kiss is full of ringing sorrow–and the one I love is not here, and I seek love again, and I tell my tale in vain–my heart cannot bare itself, and the poison torments me and my head grows heavier. Am I not beautiful in my despair? Come closer to me.

I love you.

Lady Lilith por J. Enright

Once I was bathing in a stagnant swamp in the forest–I love to be clean–it is a sign of noble birth, and I bathe frequently. While bathing, dancing in the water, I saw my reflection, and as always, fell in love with myself. I am so fond of the beautiful and the wise! And suddenly I saw–on my forehead, among my other inborn adornments, a new, strange sign–Was it not this sign that has brought the heaviness, the petrified look, and the sweet taste in my mouth? Here a cross is darkly outlined on my forehead–right here– look. Come closer to me. Is this not strange? But I did not understand it at that time, and I liked it. Let there be no more adornment. And on the same day, on that same terrible day, when the cross appeared, my first kiss became also my last–my kiss became fatal. One in many! One in many!

Oh!

You love precious stones, but think, my beloved, how far more precious is a little drop of my poison. It is such a little drop.– Have you ever seen it? Never, never. But you shall find it out. Consider, my beloved, how much suffering, painful humiliation, powerless rage devoured me: I had to experience in order to bring forth this little drop. I am a queen! I am a queen! In one drop, brought forth by myself, I carry death unto the living, and my kingdom is limitless, even as grief is limitless, even as death is limitless. I am queen! My look is inexorable. My dance is terrible! I am beautiful! One in many! One in many!

Oh!

Do not fall. My story is not yet ended. Come closer to me.

And then I crawled into the stupid forest, into my green dominion.

Now it is a new way, a terrible way! I was kind like a queen; and like a queen I bowed graciously to the right and to the left. And they–they ran away! Like a queen I bowed benevolently to the right and to the left–and they, queer people–they ran away. What do you think? Why did they run away? What do you think? Look into my eyes. Do you see in them a certain glimmer and a flash? The rays of my crown blind your eyes, you are petrified, you are lost. I shall soon dance my last dance—do not fall. I shall coil into rings, I shall flash my scales dimly, and I shall clasp my steel body in my gentle, cold embraces. Here I am! Accept my only kiss, my nuptial kiss–in it is the deadly grief of all oppressed lives. One in many! One in many!

Bend down to me. I love you.

Die!”

Leonid N. Andreyev


Lady Lilith. Meia mulher. Meia serpente. Apartou Adão e Eva.

Lilith simboliza a rebelião, a raiva e a sexualidade indomada. O alfabeto de Ben Sira, na sua abordagem Kabbal do século XI, sugere que Adão e Lilith foram em tempos um só. Esta união não seria, no entanto, duradoura. Os confrontos entre ambos seriam constantes devido à recusa de Lilith em aceitar submeter-se ao domínio de Adão. Lilith considerava que se ambos haviam nascido da “Terra” ambos eram iguais. Ela acaba por fugir para reclamar o seu direito à igualdade, no entanto, rapidamente percebe que a sua fuga se eternizará devido à supremacia de Adão. Lilith refugia-se nos céus.

Adão queixa-se então a Deus da sua solidão e Deus cria Eva a partir da sua costela e para seu usufruto. Por ciúme e raiva, Lilith leva a submissa e dócil Eva a comer o fruto proibido e Eva e Adão são expulsos do paraíso. Adão culpa Eva pelo sucedido e junta-se a Lilith mas, novamente, a união entre ambos fracassa e Adão volta para Eva. Lilith magoada dá então início a uma vida de promiscuidade na qual se envolve com vários “demónios” e gera diversas crianças “demoníacas”. Conta a lenda que Lilith enlouquece quando os seus filhos são mortos na sua presença devido à sua natureza e que daí em diante passa a perpetrar actos que pela sua crueldade indescritível a afastam de toda a humanidade. Lilith passa a ser conhecida como a mulher que traz consigo o pecado e a morte, mas até nesta perspectiva masculinizada, a sua imagem é de uma extrema ambiguidade, de uma inocência perversa que arrasta para a morte os que dela se aproximam.

É interessante perceber Lilith como a primeira mulher e também como a primeira mulher a exigir a igualdade de géneros. É interessante perceber como a sorte mitológica que a “esperou” por essa ousadia, se repetiu séculos a fio na existência de milhares de outras mulheres. É ainda interessante perceber, que se olharmos à nossa volta com atenção, hoje mais do que nunca, cruzamo-nos com inúmeras mulheres Lilith, por quem a ruína da vida afectiva foi aceite, como o preço a pagar pelo não à pobreza da submissão. Detesto a visão da Lilith demoníaca e sanguinária criada para enegrecer aquele pedido de igualdade inicial. Não entendo quem não entende, a frustração e a raiva de quem se sente trocada só porque ousa querer ou ser. Gosto de pensar que cada vez é maior o lado Lilith em cada uma de nós. E que esta rivalidade intra-género embaraçosa, por um género que não deve ser motivo de batalhas mas antes alvo de apreciação pessoal, fique cada vez mais para trás. Ou então, Lilith será para sempre a figura feminina, eternamente perdida entre os céus e a terra.

Lady Lilith. Meia mulher. Meia serpente. Apartou Adão e Eva? Quem terá apartado algo bem maior, dentro dela?

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Fotos: “Lady Lilith” Fanny Cornforth por D. Rossetti (1872). Propriedade de Delaware Art; Jean Seberg in “Lilith” de Robert Rossen (1964); “Lilith” por K. Cox (1855-1919); “Lilith” por M. Drex; “Lilith” por J. Collier (1892); “Lady Lilith” por J. Enright (contemporâneo), “Lilith” por B. Vallejo (1994) e “Lilith” por Philippe Roy (2007).

NailS UNpolished

Março 27, 2008 - No Responses

Atrás da porta

As portas fecham-se. E fecham-se mais por culpabilidade que por outro motivo qualquer.

Às vezes fechamos as portas de rompante com um belo estrondo. Outras vezes fechamo-las devagar, quase sorrateiramente. De uma forma ou de outra a ideia é encerrar qualquer coisa lá fora - ou será cá dentro?… Por vezes, as situações permitem-nos fazê-lo sem grandes explicações ou públicos. Outras vezes enleamo-nos em porquês e escoramo-nos de tomadas de decisão cuja a implacabilidade ninguém entende, mas todos calam ou aprovam. E fazem bem. Quando se tem - ou se acredita ter - de fechar uma porta, toda a argumentação funciona um pouco como uma biqueira de sapato no vão entre a porta e o umbral: é non grata. A radicalidade é um estado promovido pela emocionalidade a que a racionalidade é absolutamente alheia.

Fechada a porta respiramos de alívio e vamos até à cozinha beber um café. Algures entre o café a meio da chávena e a chávena vazia surgirá pela primeira vez a dúvida. Mas a dúvida surgirá imensas vezes até a esquecermos.

Sempre que fechamos uma porta assumimos a nossa incapacidade para lidar com algo - o que ás vezes é sádio, mas a maior parte das vezes é apenas uma retirada face a algo que não compreendemos - nem queremos compreender. Muitas vezes é também a ùnica forma que temos de não ficar face a face com os nossos gestos, com as nossas palavras, com o nosso egoísmo, com a nossa imponderação… com a nossa culpa no cartório. Com a nossa vergonha. A porta está fechada, mas há vestígios do nosso verniz (vermelho) espalhados por toda ela.

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Foto: Propriedade de Craig Roberts.

Ou então, não era nada…

Março 26, 2008 - No Responses

Beleza

“Já sei muito. Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Só sei que não está onde as mulheres julgam. (…) Esta falta das mulheres a si próprias, por si próprias prepetrada, apareceu-me sempre como um erro. Não havia que atrair o desejo. Ele estava naquela que o provocava ou não existia. Ou estava lá desde o primeiro olhar ou então nunca existira. Era a inteligência imediata da relação de sexualidade ou então não era nada.”.

Marguerite Duras in O Amante

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Foto: Propriedade de Ales Rajsky.

Carta de Helena de Tróia ao Adamastor

Março 22, 2008 - No Responses

Adamastor

(Já não Querido) Adamastor,
“Cada vez que julgamos que nos vingámos, o ódio reaparece.”, escreveste.
Agora já sei que te referias a ti, Adamastor. O teu ódio por mim é inultrapassável… Não houve maldade alguma tua, por mais bárbara ou vil, que tenha chegado para satisfazer o teu desejo de vingança.
Alivia-me perceber que tinha razão. Nenhuma relação fecundaria num solo prenhe de ódio. Por isso tens de me deixar ir. Deixou de haver espaço. Deste resposta às minhas perguntas e eu agradeço-te por isso. Libertaste-me.
Agora percebo que forcei razões para gostar de ti. Sempre foram mais as coisas que nos afastaram do que as que nos uniram. Acho que és um sobrevivente mas no pior sentido do termo.
E sim, deita as cuecas fora. Já agora deita também a minha escova de dentes, que sabe lá Deus porquê, guardaste na última prateleira do armário do wc. Deita-a fora. Eu não vou lá estar para a receber de volta. Tu nunca irás mudar. Regresso a Esparta e a Melenau.
Helena
PS: Deixo-te ficar aquela foto que te tirei em cima do rochedo. Quando me disseste que estavas a fazer adeus às ondas…
Kami Kaze in Cartas de Helena de Tróia.

Não sabemos o que o Adamastor fez à escova de dentes. Sabemos que era de marca branca e de tipo “macia” o que não agradava particularmente a Helena que sempre preferiu escovas de dentes “duras”. Sabemos também que Helena nunca recuperou a sua peça de roupa interior. Acreditamos que foi à Oisho e comprou outras vermelhas com umas cornucópias douradas mínimas. Lindíssimas. Um leitor mais atento relatou-nos tê-la visto à porta dos provadores com o cabide na mão. O leitor referiu ainda que Helena aparentava estar calma e de bom humor o que a nós nos agradou particularmente saber. O Rei Menelau recebeu-a de braços abertos. Depois de Páris e do episódio em Tróia, qualquer regresso sem obrigatoriedade de pôr milhares de homens em campo é bem vindo. Sabemos que Zeus, Leda e Tíndaro apareceram para dar o seu apoio a Helena. Não tivemos mais relatos relativos ao Adamastor mas assumimos que ainda esteja na sua gruta, a esfregar a escova de dentes pela coxa e a tentar perceber a diferença entre “macia” e “dura”… Sabemos que atirou com algumas caravelas portuguesas às rochas na tentativa de entender melhor o conceito de “consistência”, e acabou alvo do poema de Fernando Pessoa que se segue.

O Monstrengo

“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse:«Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»”

Fernando Pessoa

Porque ao leme de um navio, seja ele qual for… nós temos de ser sempre mais do que nós. Nós temos de ser todas as pessoas, que contam connosco para seguir viagem.

Catarina A. Santos

Foto: Pintura de Carlos Reis “O Adamastor”.

Nasci com o meu umbigo.

Março 9, 2008 - No Responses

Umbigos

Há pessoas que chegam ao pé de nós nos momentos exactos e nos dizem palavras pequenas que nos transformam por dentro. Essas pessoas são importantes. São aquelas que no leque colorido dos conhecimentos devem ser guardadas como as jóias insubstituíveis.

Não digo que estas pessoas sejam estimáveis por nos dizerem o que precisamos de ouvir. Mas porque gostam de nós o suficiente, para se terem dado ao trabalho de pensar no que sentimos, de se colocar no nosso lugar - e de a partir desse assento desconfortável - perceberem o que nos dói, o que nos inquieta, o que nos falta.

Acertar em cheio no coração do outro não é um exercício de erro e repetição. É um momento de esforço e de empatia. Regra geral fazemo-lo por quem gostamos. Regra geral, fá-lo por nós quem nos quer bem.

E como chegamos daqui aos umbiguistas?… Os umbiguistas são o cinza do leque. O seu umbigo é o centro do universo e nós “os outros” somos demasiado volumosos e pouco importantes, para caber em tão exígua depressão.

Os umbiguistas são aqueles que até podem dizer algo muito parecido com o que aquele nosso amigo verdadeiro de há pouco disse, mas di-lo-ão com muitas mais palavras e algo ali no meio não nos soará bem.

E mais importante ainda, não o dirão porque se preocupam connosco, mas somente porque acreditam que se de quando a quando notarem que existem outros seres vivos e forem tenuemente simpáticos para com eles, o mundo em geral não lhes fará o que eles fazem com os outros, ou seja, não lhes passará totalmente ao lado.

E, desta feita, não é umbiguista quem pode… é umbiguista quem quer. [Sob Penhora...]

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Foto: Retirada de hirondelle.blogs.sapo.pt.

Sob Penhora

Fevereiro 25, 2008 - One Response

Depressividade

Quem pensa que o sadomasoquismo é apenas uma variante ao comportamento sexual tem de pensar outra vez. E pode começar por aqui: A identificação da vítima ao agressor ou o masoquismo moral.

“No fundo ela agarra-se à ideia que a outra pessoa vai mudar. Que vai deixar de fazer as coisas que faz. Que se vai tornar boazinha… “.

Não. Ninguém se submete a um carrasco por acreditar que ele um dia vai mudar e ficar “bonzinho”. Quem se submete a um carrasco, quem se ajoelha sob o seu domínio, aguarda a única coisa que pode aguardar… que o carrasco finalize a sua missão. Quem se submete a um carrasco espera dele o castigo devido - se possível máximo - para esse “pecado” de que não se lembra bem, mas do qual tem a certeza que saiu impune.

Não há um sádico se não houver um masoquista. E, é bem verdade, que o masoquista se põe a jeito. Mas é igualmente verdade que não é masoquista quem quer, é masoquista quem pode. E o que habilita alguém a essa condição é um passado profundamente marcado pela falta de amor. Pela ausência de um investimento afectivo e humano incondicional. É uma infância demasiado pobre. Uma infância na qual, como Marguerite Duras escreve: “Muito cedo na minha vida, era já tarde demais.”.

No masoquismo não se ama a dor. Ama-se o alívio que a dor traz à culpabilidade que se sente dentro. Ama-se a confirmação da certeza de não se ser amado e de, por isso mesmo, não se merecer mais nada para além de mais desamor. “Odeia-me como eu gostaria de me conseguir odiar, pela tristeza absoluta de nunca ter conseguido merecer o afecto dos outros.”.

Ama-se o saldar da dívida, numa existência em que a autonomia e a felicidade, estão eternamente sob penhora.

Catarina Santos

(Sociedade de Psicologia)

Foto: Retirada de Knowledge Base.

100 mais

Fevereiro 10, 2008 - No Responses

Uma lista dos 100 melhores albuns pop/rock de sempre.
Critérios: qualidade do conjunto música/letra;
importância que tiveram na evolução geral;
importância que tiveram num sub-género;
e… of course, o meu gosto pessoal!

1. The White Album - The Beatles (196 8)
2. The Queen is Dead - The Smiths (1986)
3. Pet Sounds - The Beach Boys (1966)
4. Hunky Dory - David Bowie (1971)
5. The Lamb Lies Down On Broadway - Genesis (1974)
6. Transformer - Lou Reed (1972)
7. The Stone Roses - The Stone Roses (1989)
8. In A Glass House - Gentle Giant (1973)
9. Blonde On Blonde - Bob Dylan (1966)
10. London Calling - The Clash (1979)
11. Dummy - Portishead (1994)
12. Led Zeppelin IV - Led Zeppelin (1971)
13. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band - The Beatles (1967)
14. The Doors - The Doors (1967)
15. Who’s Next - The Who (1971)
16. The Dark Side of the Moon - Pink Floyd (1973)
17. Freak Out! - Frank Zappa & The Mothers of Invention (1966)
18. Thick As A Brick - Jethro Tull (1972)
19. The Rise And Fall Of Ziggy Stardust - David Bowie (1972)
20. Beggars Banquet - The Rolling Stones (196 8)
21. In The Court Of The Crimson King - King Crimson (1969)
22. Peter Hammill - Over (1977)
23. Bridge Over Troubled Water - Simon & Garfunkel (1970)
24. Tubular Bells - Mike Oldfield (1973)
25. Closer - Joy Division (1980)
26. Harvest - Neil Young (1972)
27. Absolutely Live - The Doors (1970)
28. Out of time - R.E.M. (1991)
29. Blood & Chocolate - Elvis Costello (1986)
30. Marquee Moon - Television (1977)
31. The Joshua Tree - U2 (1987)
32. Automatic for the People - R.E.M. (1992)
33. Déjà Vu - Crosby, Stills, Nash & Young (1970)
34. American Pie - Don McLean (1971)
35. Aqualung - Jethro Tull (1971)
36. Horses - Patti Smith (1975)
37. Songs of Love and Hate - Leonard Cohen (1971)
38. Sign ‘O’ the Times - Prince (1987)
39. The Velvet Underground & Nico - The Velvet Underground (1967)
40. Revolver - The Beatles (1966)
41. Remain in Light - Talking Heads (1980)
42. Pearl - Janis Joplin (1971)
43. Never Mind the Bollocks Here’s the Sex Pistols - The Sex Pistols (1977)
44. Low-Life - New Order (1985)
45. Goodbye & Hello - Tim Buckley (1967)
46. Babylon by Bus - Bob Marley & The Wailers (197 8)
47. A Salty Dog - Procol Harum (1969)
48. 69 Love Songs - Magnetic Fields (1999)
49. Rain Dogs - Tom Waits (1991)
50. Something Else By The Kinks - The Kinks (1967)
51. Are You Experienced? - Jimi Hendrix (1967)
52. Chuck Berry Is on Top - Chuck Berry (1959)
53. From Gardens Where We Feel Secure - Virginia Astley (1983)
54. Penguin Cafe Orchestra - The Penguin Cafe Orchestra (1981)
55. Sound Affects - The Jam (1980)
56. Psychocandy - The Jesus and Mary Chain (1985)
57. Surfer Rosa - Pixies (198 8)
58. Liege & Lief - Fairport Convention (1969)
59. Before And After Science - Brian Eno (1977)
60. Pink Moon - Nick Drake (1972)
61. Bring On The Night - Sting (1986)
62. Felt Mountain - Goldfrapp (2000)
63. John Barleycorn Must Die - Traffic (1970)
64. Mezzanine - Massive Attack (199 8)
65. Surrealistic Pillow - Jefferson Airplane (1967)
66. Big Science - Laurie Anderson (1982)
67. Moondance - Van Morrison (1970)
68. Reggatta de Blanc - The Police (1979)
69. Ladies of the Canyon - Joni Mitchell (1970)
70. Still Life - Van Der Graaf Generator (1976)
71. Liberty Belle and the Black Diamond Express - Go-Betweens (1986)
72. Imagine - John Lennon (1971)
73. From Elvis in Memphis - Elvis Presley (1969)
74. Made In Japan - Deep Purple (1972)
75. Moon Safari - Air (199 8)
76. Mellow Gold - Beck (1994)
77. Ocean Rain - Echo & the Bunnymen (1984)
78. Songs of Leonard Cohen - Leonard Cohen (196 8)
79. The Trinity Sessions - Cowboy Junkies (198 8)
80. Treasure - Cocteau Twins (1984)
81. Talking Book - Stevie Wonder (1972)
82. For Your Pleasure - Roxy Music (1973)
83. Dire Straits - Dire Straits (197 8)
84. Music for the Jilted Generation - Prodigy (1995)
85. Bringing It All Back Home - Bob Dylan (1965)
86. Funeral - Arcade Fire (2004)
87. Look Sharp! - Joe Jackson (1979)
88. Madonna - Madonna (1983)
89. My Beautiful Sinking Ship - Devics (2001)
90. Knife - Aztec Camera (1984)
91. Octopus - Gentle Giant (1972)
92. Grace - Jeff Buckley (1994)
93. OK Computer - Radiohead (1997)
94. Nevermind - Nirvana (1991)
95. Violator - Depeche Mode (1990)
96. Kill ‘Em All - Metallica (1983)
97. Boulevard - St. Germain (1996)
98. Dare! - The Human League (1981)
99. Different Class - Pulp (1995)
100. What’s Going on - Marvin Gaye (1971)

Rui Barroso